Tuesday, May 22, 2007

Eu invertida


Espelho? Esse vazio cristalizado que tem dentro de si espaço para ir para sempre em frente sem parar: pois espelho é o espaço mais fundo que existe. E é coisa mágica: quem tem um pedaço quebrado já poderia ir com ele meditar no deserto. Ver-se a si mesmo é extraordinário. Como um gato de dorso arrepiado, arrepio-me diante de mim. Do deserto também voltaria vazia, iluminada e translúcida, e com o mesmo silêncio vibrante de um espelho.

A sua forma não importa: nenhuma forma consegue circunscrevê-lo e alterá-lo.

Espelho é luz. Um pedaço mínimo de espelho é sempre o espelho todo.

Tire sua moldura ou a linha de seu recortado, e ele cresce assim como água se derrama.

O que é um espelho? É o único material inventado que é natural. Quem olha um espelho, quem consegue vê-lo vem se ver, quem entende a sua profundidade consiste em ele ser vazio, quem caminha para dentro de seu espaço transparente sem deixar nele o vestígio da própria imagem-esse alguém então percebeu o seu mistério de coisa. Para isso há de se surpreendê-lo quando está sozinho, quando pendurado num quarto vazio, sem esquecer que a mais tênue agulha diante dele poderia transformá-lo em simples imagem de uma agulha, tão sensível é o espelho na sua qualidade de reflexão levíssima, só imagem e não corpo. Corpo da coisa.

Ao pintá-lo precisei da minha própria delicadeza para não atravessá-la com minha imagem, pois espelho vazio é que é o espelho vivo. Só uma pessoa muito delicada pode entrar no quarto vazio, e com tal leveza, com tal ausência de si mesma, que a imagem não marca. Como prêmio essa pessoa delicada terá então penetrado num dos segredos invioláveis das coisas: viu o espelho propriamente dito.

E descobriu os enormes espaços gelados que ele tem em si, apenas interrompidos por um ou outro bloco de gelo. Espelho é frio e gelo. Mas há sucessão de escuridões dentro dele-perceber isto é instante muito raro-e é preciso ficar à espreita dias e noites, em jejum de si messo, para poder captar e surpreender a sucessão de escuridões que há dentro dele. Com cores de preto e branco recapturei na tela sua luminosidade trêmula. Com o mesmo preto e branco recapturo também, num arrepio de frio, uma de suas verdades mais difíceis: o seu gélido silêncio sem cor. É preciso entender a violenta ausência de cor de um espelho para poder recriá-lo, assim como se recriasse a violenta ausência de gosto da água.

Não, eu não descrevi um espelho, eu fui ele. E as palavras são elas mesmas, sem tom de discurso.


Fragmento de Água Viva, Clarice Lispector

3 comments:

Jannine L'Amour said...

Ai Wal Clarice Lispector é tudo, né? Menina que lindo seu blog, e vc é uma artista, hein?! Bisou, Jan.

Marcel Costi said...

Walllll queria eu ser tao poetico e ter um blog chique assim!!! Morrendo de saudades! Coloque juizo na cabeca desse povo por ai! Bjao

Marcel Costi said...

Segue o contato, Wal:

geovanemarques@hotmail.com

Saudades!!!!!!!